True Blue - Fonoteca Municipal do Porto

Fonoteca Municipal do PortoFMP

GMP

True Blue

Maria Barbosa de Carvalho

Resenha

25 Setembro 2026

Está no menu diário da crítica musical a proposta de que Like a Prayer foi a primeira obra prima de Madonna, mas e o seu antecessor?
40 anos depois do lançamento de True Blue, e em pleno desarmamento emocional da rainha da pop através de Confessions II, aproveitamos o pendor do tempo para refletir sobre um passado de Madonna que parecia ter ficado diluído na memória — mas não ficou.

Conhecido como o álbum influenciado por uma relação recentemente velada (através da faixa Bizarre no seu último disco), o terceiro trabalho assinado pela artista almejou um lugar estético que não podia ter ficado só reservado à experiência de uma relação falhada. Além de ter sido a sua primeira coprodução integral, na parede das conquistas da Rainha da Pop True Blue surge como preâmbulo da emancipação artística de Madonna que, além de ter proposto a new persona distinta da ingenuidade de Like a Virgin, inaugurou uma era cromática visualmente marcada em discos futuros como Erotica e Ray of Light.

Berço de provocações simbólicas em Papa Don’t Preach, e com uma distensão sonora eximiamente executada em La Isla Bonita (sem esquecer a peça de recorte que imortaliza a voz de James Francis Cagney em White Heat), este disco foi também um momento através do qual a pop music nos falou sobre uma das maiores tragédias do fim do século XX. Afinal, além da sua progressão de acordes, o que é que distingue a letra de Live to Tell de todas outras?

Fala-se muito dos anos oitenta e da cortina de ferro que dividia o ocidente, a corrida atómica e um esfriamento que protagonizava a política social de uma década à mercê da velha armadilha do dinheiro arrecadado. Em momentos como o Live Aid, a música pop esteve numa das estantes da montra capitalista, e é verdade que Madonna não deixou de fazer parte desse momento quando subiu ao palco para cantar Love Makes the World Go Round pela primeira vez – canção que seria o primeiro vislumbre deste álbum.

Ainda assim, e à distância de quatro décadas, a força motriz de Live to Tell tornou-se essencial para contar a história da carreira de Madonna Louise Ciccone, não só pela sua interpretação, como também por ter inaugurado um lugar na sua música que não existia até então. Este foi um dos momentos de viragem para as preocupações sociopolíticas que iriam acompanhar os seus 47 anos de carreira.

Se True Blue fosse uma ópera dividida em três atos, Live to Tell seria o fim do primeiro: a apresentação do problema principal, uma premonição materializada em som. Canção que nos fala de um segredo guardado há demasiado tempo, de sobreviver para contar a verdade (“if I live to tell the secret I have learned”), da vergonha e da esperança de continuar vivo. Depois do lançamento, não deixamos de a ouvir nas suas principais digressões, acabando por se transformar numa balada memorial em homenagem às vidas que se perderam para a SIDA.
Se há momento que não se pode esquecer, para quem acompanhou Confessions Tour, é o de Madonna auto-crucificada, diante dos milhares de rostos de crianças que não sobreviveram à epidemia.

O mais ambicioso do terceiro disco de Madonna é que, apesar do caminho mais fácil para a seriedade serem os momentos de adágio, Madonna mostra-nos que também é possível uma seriedade atrevida que nos reconforta e permite recordar o seu lugar sonoro mais comum. Ao escutarmos faixas como Where’s the Party ou Jimmy Jimmy, voltamos à dance-pop a que sempre Madonna nos habituou, frutos do seu álbum self titled Madonna, que inaugurou uma carreira de longevidade, renovação, e disrupção.

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