Quando a morna chegou a Lisboa: Marino Silva e Fernando Quejas - Fonoteca Municipal do Porto

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Quando a morna chegou a Lisboa: Marino Silva e Fernando Quejas

Ilídio Marques

Percurso

29 Outubro 2026

Entre os diversos períodos de fome que assolaram o arquipélago de Cabo Verde há um que se sobrepõe aos outros pela sua brutalidade: o da década de 1940, com dois intensos momentos em 1941-1943 e 1947-1948. Duas secas severas que levaram à fome, matando milhares de pessoas, mas também à emigração forçada. O povo cabo-verdiano, que sempre se pautou pela sua resiliência à ausência de chuva, vê-se obrigado a partir, mais uma vez e massivamente, para São Tomé e Príncipe. As plantações de cacau, longe do seu apogeu e há décadas em sucessivo declínio pela falta de mão de obra, recebiam mais uma leva de “contratados”, designação que encobria a escravatura do Estado colonial português.

Do êxodo migratório, da fome, da seca e da saudade nascia a alma da canção cabo-verdiana: em 1954, com “Sodade de Nha Terra S. Nicolau”, morna de Armando Zeferino Soares; em 1959, com o funaná “Fomi 47”, de Codé Di Dona.

Dos barcos que partiam do Porto Grande do Mindelo ou dos pequenos portos de outras ilhas, poucos tinham a metrópole (termo colonial para designar Portugal em oposição aos territórios ocupados) como destino. A minoria que atracava em Lisboa era insignificante e longe dos fluxos assinaláveis que aconteceriam nas décadas de 1960 e de 1980, fazia-o por ser parte de uma elite ou por procurar estudos superiores.

Quando, em 1946, Marino Coutinho Silva (1931-2023) deixou a ilha do Sal para rumar a Portugal, a povoação de Santa Maria fora fundada havia pouco mais de um século. A extração e o comércio do sal constituíam a grande força motora do desenvolvimento económico da ilha, atividade praticamente desaparecida nos dias de hoje face à rentabilidade do turismo. Desses longínquos anos 40 pouco ou nada permanece, na ilha ou na povoação, para além da memória e de raros encontros com mornas, que se escutam na rádio pública e escapam pelas frinchas das janelas de uma geração de casas mais antigas.

Com cinco irmãos (três rapazes e duas raparigas), Marino Silva tinha 15 anos quando partiu da ilha onde começara a aprender a tocar no violão do pai. O pai, oficial da marinha mercante portuguesa, levou-o para estudar em Lisboa.

Noutra ilha, um ano mais tarde que Marino, no ano da “grande fome”, Fernando Quejas (1922-2005), outra figura fundamental da morna, partiu da Praia para Lisboa, deixando o emprego na Rádio Clube de Cabo Verde, a primeira estação de rádio do país e onde era sócio-fundador. À época, se eram poucos os cabo-verdianos a residir na capital portuguesa, o número de músicos era reduzidíssimo. Os dois tornar-se-iam amigos e cúmplices até ao fim da vida, com Marino a despedir-se de Quejas cantando-lhe a famosa “Hora di Bai”, morna de adeus que gravara no seu primeiro LP, “Na Cabeça de Quem?” (1975, Dó Lá Si Discos).

Entre 1950 e o início da década de 1970, Silva e Quejas foram as grandes figuras dinamizadoras da morna e da coladera em Portugal, editando dezenas de EPs na mesma casa, a portuense Alvorada. Neste período, a predominância da canção em Portugal pertencia ao fado, de quem se reconhece a proximidade com a morna. Foi nessas décadas que Amália Rodrigues popularizou o fado, se estreou no Olympia de Paris, gravou no estrangeiro, iniciou uma carreira internacional e inovou ao introduzir os poetas no género. Em entrevista ao projeto Cabo Verde & a Música, Quejas reconheceu essa grandeza com uma história passada no Casino da Praia da Rocha, em Portimão. Ao chegar, viu um cartaz com o seu nome e percebeu que iria atuar sozinho, sem entender porquê, já que a sua fama era diminuta. Ao lado, outro cartaz anunciava um espetáculo de Amália para o dia seguinte. Convencido de que ninguém iria assistir ao seu concerto, sentiu os nervos apoderarem-se dele. Para sua surpresa, na hora de subir ao palco, encontrou a sala cheia, com gente até de pé. Emocionou-se com os aplausos e recordou aquele como um dos grandes momentos da carreira.

Quejas foi também responsável pelo primeiro registo sonoro de mornas em Portugal, em 1952, para a Columbia Records, onde gravou com uma orquestra, um sonho antigo que trazia de Cabo Verde. Na Emissora Nacional, onde trabalhava, foi introduzindo as mornas aos poucos no programa “Serão para Trabalhadores”, num trio que juntava Marino e o português Martinho Silva. Davam-se os primeiros passos da morna na capital, canção numa língua não compreendida, “que muitos ligavam ao fado ou à música brasileira”, como recordou Marino ao jornal “A Nação”. Curiosamente, a primeira incursão radiofónica de Quejas, no “Programa da Manhã”, de Artur Agostinho, foi a cantar música brasileira, então popular entre os jovens cabo-verdianos. Um ouvinte brasileiro chegou a perguntar-lhe de que parte do Brasil era. A abertura de Quejas à música de outras fronteiras era algo natural e, ao mesmo tempo, um instinto de sobrevivência; a introdução da morna no seu repertório foi gradual. Em Portugal, aportuguesava a morna para que a língua não fosse um obstáculo junto de um público que não falava crioulo. Chegou mesmo a ser acusado de desvirtuar a morna, mas houve quem, em Cabo Verde, tivesse uma leitura contrária: Jaime de Figueiredo, ao apresentar um disco do cantor na Rádio Clube de Cabo Verde, em 1958, viu-o como inovador e vanguardista da canção cabo-verdiana. Tal como foi pioneiro ao gravar com orquestra no seu primeiro disco, fê-lo novamente ao introduzir outros instrumentos no acompanhamento da morna para além dos habituais cavaquinho, violão e violino, o que abriu a canção à influência de outros universos sonoros.

Marino gravou pela primeira vez em 1958, num registo da Alvorada partilhado com a cantora cabo-verdiana Maria da Luz. Com o seu conjunto, que se manteve entre 1960 e 1970, tocava sempre que algum músico cabo-verdiano “que realmente soubesse tocar” chegava à cidade. Tentava continuamente aperfeiçoar-se enquanto músico, embora a música para ele fosse sempre um passatempo; foi chefe de serviços na Câmara Municipal de Lisboa até se reformar. Para tal, absorveu o conhecimento de outros grandes músicos, como Armando Tito e Frank Mimita e, sobretudo, no seu início de carreira, o mestre Luís Rendall, que terá sido o primeiro cabo-verdiano a tocar uma morna em Portugal, em 1934, na Primeira Exposição Colonial Portuguesa, nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto.
Assistiu ao 25 de Abril de 1974, mas nunca se envolveu na política. Voltou à ilha do Sal, pela primeira vez desde que partira, a 5 de julho de 1975, precisamente no dia em que se declarou a independência de Cabo Verde. “Havia uma grande efervescência”, referiu. Talvez contagiado por esse clima, tenha gravado três canções políticas sobre Amílcar Cabral nos anos seguintes: “Nôs Bandera”, escrita por Dany Mariano, editada no LP “Bobista Dja Manchê” (1976, A Voz de Cabo Verde); “Sacrificio D'Cabral”, com letra de Armindo Pires, e “Verdade De Cabral”, ambas no LP “Karaté” (1977, A Voz de Cabo Verde), disco com acompanhamento pela segunda formação d’A Voz de Cabo Verde, que incluía Paulino Vieira, Armando Tito e Leonel Almeida.
Na década de 1980, longe dos tempos áureos da rádio e com o arrefecer da morna nas edições discográficas, substituída pelo interesse na fase elétrica da música de Cabo Verde, afastou-se dos estúdios e das gravações, mas continuou a tocar, entre amigos, em espaços comunitários da região de Lisboa. Para trás, deixou uma discografia de mais de duas dezenas de EPs e sete LPs, contribuindo para abrir as portas da cultura musical cabo-verdiana ao fenómeno que viria a acontecer nas décadas seguintes em Lisboa e no mundo, com Bana e Cesária a tornarem-se os dois grandes embaixadores da morna.

Fernando Quejas esteve 43 anos sem voltar ao seu país natal. Regressou em 1990, quando Aristides Pereira, então Presidente da República, teve conhecimento da mágoa do artista por não ter sido convidado para atuar em Cabo Verde, tal como via acontecer com muitos artistas portugueses. Atuou e foi homenageado na Assembleia Nacional.

Quejas morreu em 2005, dias depois de ter batido com a cabeça na guitarra quando tentava retirar do rádio uma cassete de mornas que encravara. Marino Silva passou a ser o último pioneiro vivo da morna em Portugal e, em 2019, já com 88 anos, assistiu à proclamação da morna como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Viria a falecer aos 92 anos, em Almada.

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