15 Janeiro 2026
A obra Viagens na minha terra tem como subtítulo Dezanove peças para piano sobre melodias tradicionais portuguesas. Em cada um dos andamentos deste ciclo, composto entre 1953 e 1954, encontramos referências a lugares, especificidades ou tradições de várias localidades portuguesas, numa espécie de compilação das viagens de cariz etnográfico que Lopes-Graça foi fazendo pelo país, nomeadamente na companhia do etnomusicólogo corso Michel Giacometti. Após a composição desta peça para piano, Lopes-Graça decidiu fazer uma “orquestração das peças, realizada no Senhor da Serra de Semide e na Parede entre Setembro e Dezembro de 1969” dividida em Suite nº1 e Suite nº2 (Vieira de Carvalho, 2006, p. 69). O investigador, autor do belíssimo texto da contra-capa do disco que se encontra na Fonoteca Municipal do Porto (Nº Catálogo: 860008) refere ainda:
“a vastidão dos meios orquestrais utilizados por Lopes-Graça - dos mais complexos e diversificados de que até agora se serviu um compositor português - actua no sentido da subtileza do colorido e das ‘nuances’, que não do efeito de massa. No contingente instrumental figuram: piccolo, 2 flautas, 2 oboés, corne inglês, 2 clarinetes em mi bemol, clarinete em si bemol, clarinete baixo em si bemol, clarinete contrabaixo em si bemol, 2 fagotes, contra-fagote, 4 trompas em fá, 3 trompetes em lá, 3 trombones, tuba, tímpanos, bateria (muito abundante), sinos, xilofone, xilofone-marimba, vibrafone, glockenspiel, celesta, 2 harpas, piano, guitarra, e quinteto de cordas. Acrescente-se ainda a utilização de dois adufes, no nº 10 da Suite Segunda, intitulado Os adufes troam na romaria da senhora da Póvoa deVale-de-lobo.” (pp. 70 e 71)
Na obra Viagens na minha terra cada andamento é baseado numa canção tradicional portuguesa e Weffort (2006) sumariza as três grandes preocupações de Lopes-Graça na abordagem a esta temática: “a delimitação do conceito de música tradicional [...]; o reconhecimento da música tradicional enquanto parte integrante de uma identidade cultural nacional; a valorização estética da música tradicional e o sublinhar da relação entre a música e a vida social” (p. 24). Ao construir a sua peça Viagens na minha terra com base em melodias tradicionais portuguesas que convocam o imaginário popular, e ao intitular cada andamento com referências a festividades religiosas, danças, festas populares ou paisagens, o compositor está a convocar esses elementos tanto para a interpretação como para a escuta. Apesar de tomar o nome do romance homónimo de Almeida Garrett, que remete para uma curta viagem entre Lisboa e Santarém, Lopes-Graça amplia essa viagem de forma a percorrer o país de lés-a-lés, do Algarve (Silves), ao Alentejo (Ourique), das Beiras (Monsanto ou Figueira da Foz) ao Minho (Citânia de Briteiros), uma selecção dos locais referenciados na obra. Sobre a temática da paisagem portuguesa interessa aqui transcrever um excerto de uma entrevista de Mário Vieira de Carvalho a Lopes-Graça incluída no documentário Fernando Lopes-Graça da autoria de Graça Castanheira (2009):
MVC: Pode dizer-se que a paisagem portuguesa, não só do ponto de vista geográfico mas também humano, é um tema constante na sua obra...
LG:Vocês do exterior é que devem saber isso...
MVC: Sim, quando nós ouvimos a Suite Rústica ou as Viagens na Minha Terra também...
LG: Naturalmente está integrado num contexto português, de canção portuguesa,
suponho que se deve reflectir a paisagem portuguesa. De resto eu tenho o cuidado de
situá-las em ambientes diferentes consoante o texto da canção e consoante a região de
onde provêm os temas. Enquadrá-los tanto quanto possível nesse contexto paisagístico e
humano. [42’27’’]
Viagens na minha terra relaciona-se com a cultura portuguesa também através do título da peça, que remete para o romance homónimo de Almeida Garrett (1799-1854), publicado em 1846 e que contém a sobreposição da descrição de uma viagem real, feita pelo autor, e uma narração ficcional de uma história de amor. Ao fazer referência à obra de Garrett, Lopes-Graça homenageia esta figura incontornável da literatura portuguesa mas, segundo Cascudo (2010), há uma outra leitura possível pois Lopes-Graça, que se lamentou da ausência da música na antologia de romances elaborada pelo escritor, tentou completar esse trabalho introduzindo a música numa das obras mais importantes da literatura nacional portuguesa. E essa relação simbólica com o escritor pode ir ainda mais longe se considerarmos as palavras de Vieira de Carvalho (2006):
Dir-se-ia que, se a colectânea de peças para piano de Lopes-Graça [Viagens na minha terra], mais tarde instrumentadas para grande orquestra, é, como criação artística erudita, o equivalente do romance Viagens na minha terra de Garrett, já a Antologia da música regional portuguesa de Fernando Lopes-Graça e Michel Giacometti, publicada nos anos 60, poderá ser considerada, por sua vez, nos propósitos que orientaram a sua elaboração e publicação, o equivalente musical do Romanceiro do mesmo Garrett. (p. 63)
No autógrafo da partitura da versão original de Viagens na minha Terra , que foi possível consultar no Museu da Música Portuguesa - Casa Verdades de Faria, em Cascais , o compositor adicionou um pequeno comentário junto ao título de alguns dos andamentos que, juntamente com os títulos das peças, deu pistas para a identificação das melodias tradicionais originais. Esta pesquisa foi feita maioritariamente em duas instituições: no supra citado Museu da Musica Portuguesa e no Museu Nacional de Etnologia. Os casos omissos devem-se ao facto de não haver comentários de Fernando Lopes-Graça e/ou não ter sido possível identificar a proveniência da melodia original.
01 . Procissão de penitência em São Gens de Calvos
(S. Gens de Calvos - Póvoa de Lanhoso - Minho)
Comentário de FLG: Religiosidade dramática
Canção: Misericórdia, Senhor!
Fonte: Sampaio. (1940). Cancioneiro Minhoto, pp. 203 - 205
02 . Na romaria do Senhor da Serra de Semide
(Semide - Coimbra - Beira Litoral)
Comentário FLG: Material primitivo; simples fórmula rítmica tetracordal obsessivamente
repetida; variação de cor harmónica
Canção: Senhor da Serra
Fonte: Tomás. (1934). Canções Portuguesas, p. 106
03 . Noutros tempos a Figueira da Foz dançava o Lundum
(Figueira da Foz - Beira Litoral)
Comentário FLG: Naturalmente, a síncopa representa o principal elemento de
estruturação
rítmica
Canção: Lundu da Figueira (Coreográfica)
Fonte: Tomás. (1934). Canções Portuguesas, pp. 47 e 48
04 . Um Natal no Ribatejo
(localidade não especificada)
Comentário FLG: Misticismo
Canção: Canto dos Pastores
Fonte: Tomás. (1913). Velhas canções e romances populares portugueses, p. 68
05 . Em Alcobaça, dançando um velho fandango
(Alcobaça - Leiria - Estremadura)
Comentário FLG: Vivacidade coreográfica. [...] de origem espanhola ou não, o fandango é
uma das danças mais vulgares em Portugal: diversos tipos. Este na realidade é bem
português.
Melodia: Fandango
Fonte: Giacometti & Lopes-Graça. (1981). Cancioneiro Popular Português,10 p. 220
06 . Em Ourique do Alentejo, durante o São João
(Ourique do Alentejo - Baixo Alentejo)
Comentário FLG: Melodia de estilo velho / Ritos ancestrais hieratizados pela
idiossincrasia especial do povo alentejano
07 . Acampando no Marão
(Serra do Marão - Douro Litoral / Trás-os-Montes)
Comentário FLG: Simplicidade / Bonomia da gente rústica
Canção: Ó Laranja, Ó Laranja!
Fonte: Pereira (1957). Cancioneiro de Resende, p. 236
08 . Em São Miguel; Acha, durante as trovoadas, mulheres e homens cantam ao
Bendito
(São Miguel;Acha - Idanha-a-Nova - Beira Baixa)
Comentário FLG: Canção em diafonia / Antiga canção de exorcismo assimilada pelo
catolicismo e regressando à sua primitiva função mágica.
Canção: Bendito «das trovoadas»
Fonte: Lopes-Graça. (1953). Vértice - Revista de Arte e Cultura, vol. XIII, no122, p. 584
11 . Em Silves já não há moiras encantadas
(Silves - Faro - Algarve)
Comentário FLG: Envolve uma certa ironia (ó minha caninha verde) corridinho banal
Canção: Cana Verde (parcialmente)
Fonte: Tomás. (1923). Canções Populares da Beira, p. 213
12 . Cantando os Reis em Rezende
(Resende - Viseu - Beira Alta)
Canção: Ó da casa nobre gente
Fonte: Pereira. (1957). Cancioneiro de Resende, p. 354
14 - Na Citânia de Briteiros
(Guimarães, Braga – Minho)
Canção: Oh, Oh, Oh, pedra (Toada de Pedreiros)
Fonte: Gallop. (1937). Portugal, a book of folkways, p. 200
15 . Em Monsanto da Beira, apanhando a Margaça
(Monsanto/Monsanto da Beira - Idanha-a-Nova - Beira Interior/Beira Baixa)
Comentário FLG: Claridade, a aclaridade (sic) das canções de Monsanto
Canção: A margaça (Moda de Balhar)
Fonte: Viana. (1947). Cancioneiro Monsantino, (s. p.)
16 . Na Ria de Aveiro
(Aveiro - Baixo Vouga - Beira Litoral)
Canção: Canoa
Fonte: Tomás. (1934). Canções Portuguesas, p. 85
17 . Em Setúbal, comendo a bela laranja
(Setúbal - Estremadura)
Comentário FLG: Baseado num pregão usado para vender laranjas
Canção: [sem título] (pregão usado para vender laranjas)
Fonte: Gallop. (1937). Portugal, a book of folkways, p. 200
18 . Em Vinhais, escutando um velho romance
(Vinhais - Bragança - Trás-os-Montes)
Canção: Dona Filomena
Fonte: Schindler. (1941). Folk Music and Poetry from Spain and Portugal, s. p. (1)
Giacometti; Lopes-Graça. (1981). Cancioneiro Popular Português, p. 180 (2)
19 . Os adufes troam na romaria da Senhora da Póvoa de Val-de-Lobo
(Póvoa de Vale-de-Lobo - Monsanto da Beira)
Comentário FLG: Romarias da Beira Baixa / adufes / hexacórdio modal a provar a vetustez
da canção
Canção: Senhora da Póvoa
Fonte: Gallop. (1937). Portugal, a book of folkways, p. 201
Nota 1: Esta investigação foi feita no âmbito do Programa de Doutoramento concluído
pela autora deste artigo em 2017, na Universidade de Évora. A tese, intitulada
“Estudos interpretativos sobre música portuguesa contemporânea para piano:
o caso particular da música evocativa de elementos culturais portugueses”, está disponível
através deste link.
Nota 2: A autora deste artigo foi responsável pela edição da partitura para piano do ciclo
Viagens na minha terra, editada pelo mpmp e disponível aqui.
Nota 3: Está disponível no catálogo da Grand Piano (Grupo Naxos), uma gravação da obra
Viagens na minha terra feita pela autora deste artigo. O álbum chama-se Travels in My
Homeland e tem como nº de catálogo: GP792: