Operários do Natal - Fonoteca Municipal do Porto

Fonoteca Municipal do PortoFMP

Operários do Natal

Armando Sousa

Resenha

23 Dezembro 2025

Fundada em 1975, a cooperativa Toma Lá Disco foi um dos poucos exemplos em Portugal de organização coletiva frente à indústria fonográfica. Inspirados pelo trabalho pioneiro em todas as frentes do associativismo musical do Grupo de Acção Cultural - Vozes na Luta, Fernando Tordo, Carlos Mendes, Joaquim Pessoa, Ary dos Santos e Paulo de Carvalho fundaram a Toma Lá Disco com o principal objetivo de editar música e de a vender a preços acessíveis, criando assim uma alternativa a um mercado que, como diria o próprio Tordo, se encontrava dominado por “canções de pouca qualidade”.

Naturalmente, as resistências no âmbito da distribuição e venda destes discos foram muitas. As discotecas, vendo pouca margem de lucro num objeto com um preço tão baixo, não manifestaram interesse na venda das obras da Toma Lá Disco, obrigando a cooperativa a procurar nos concertos de festas e sessões de esclarecimento, o seu principal veículo de distribuição e venda dos seus discos.

Este foi portanto o reduzido espectro de público ao qual cerca de uma dúzia de títulos editados pela Toma Lá Disco terão chegado e entre os quais estaria este Operários do Natal, publicado em 1976. Se por um lado este fator não condiciona em absoluto o prestígio do seu conteúdo e a atualidade da sua mensagem, por outro é esta dificuldade em encontrá-lo que o torna ainda mais especial e desejado. E portanto, aqui se encontra a sua grande contradição. Sem querer, a cooperativa de Fernando Tordo criou um álbum que se tornou objeto de especulação e que carrega na sua existência o materialismo que de certa forma é questionado nas suas canções. Cada uma delas, é uma homenagem aos trabalhadores que tornam o Natal possível. Um Natal, entenda-se, despojado de qualquer religiosidade, onde o frenesim consumista é desaprovado em prol daqueles que estão na sombra do grande negócio.

Segundo Fernando Tordo, Operários do Natal surgiu de uma conversa com Ary dos Santos, que escreveu as letras juntamente com Joaquim Pessoa. Além de Tordo, os outros dois ex-Sheiks da cooperativa, Paulo de Carvalho e Carlos Mendes, foram os compositores e os cantores desta mensagem natalícia mas proletária, que para muitos significou paz numa época conturbada. Se há dúvidas quanto ao seu teor, estas ficam dissipadas com versos como os d’O Lenhador, “Por pouco dinheiro / Pinheiro a pinheiro / Vai-se o lenhador sustentando” ou “Quem abate o pinheiro do Natal / É alguém que trabalha e ganha mal”, em Os Palhaços, “Pagam-lhe o sorriso à hora / Com o riso come e dorme” e em Os Vendedores, “Quem sabe fazê-los / Quem sabe vendê-los / Tem sempre o Natal à mão”.

Entre 1974 e 1976, Portugal viveu uma revolução que trouxe ao país a democracia e a descolonização. A organização coletiva da Toma lá Disco e o Natal dos amigos operários são a prova de que a revolução também trouxe consigo ideias alternativas para um mundo diferente. Uma revolução que ainda hoje se faz.

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